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Documento de Espiritualidade



1-  ESTA É A NOSSA HISTÓRIA E A NOSSA VIDA.

1.1 - INTRODUÇÃO

            A animação missionária realizada pela JMV, desde 1984, facilitou que os jovens da JMV-Espanha vivessem experiências missionárias “Ad Gentes” durante os meses de férias, aproximadamente trinta jovens por temporada. Três anos depois, em 1987, alguns destes jovens começaram a permanecer como leigos em missões durante vários anos, mediante compromissos com renovação a cada dois anos, desenvolvendo diferentes tarefas pastorais e sempre em união com a Família Vicentina. A partir de 1992, alguns destes jovens expressam, várias vezes, o seu desejo de buscar uma alternativa para seguir sua opção missionária com estabilidade – na qualidade de leigos - , mantendo o seu vínculo com a Família Vicentina.

            A partir deste momento, tem-se consolidado a inquietação de que a vivência missionária não pode ficar reduzida a uma etapa juvenil, mas sim que pode ser uma forma estável de concretizar a vocação leiga. Este descobrimento deve encontrar fórmulas capazes de apoiar a sua realização e a sua futura continuidade. São realizadas muitas consultas, diálogos, reuniões e, pouco a pouco, vai amadurecendo a idéia de criar uma associação que promova, facilite, apoie e coordene a presença e o trabalho missionários dos leigos em missões “Ad Gentes” encomendadas à Família Vicentina ou estimuladas pela mesma.

            A essência inicial de Misevi encontra-se na animação missionária realizada pela JMV, que tem facilitado o amadurecimento de muitos jovens na assimilação da sua vocação missionária, a qual vem-se refinando ao longo da formação e dos envios missionários, sejam temporais ou permanentes.

            A caminhada formal de MISEVI é iniciada em um minicurso missionário em “El Cisne”, no dia 18 de Outubro de 1997, quando nós,  jovens, assumimos a responsabilidade de dinamizar a Associação no sentido de facilitar a coordenação entre os leigos que tinham estado durante mais de dois anos em missão e poder apoiá-los a nível humano, moral, espiritual e econômico.

            Na citada reunião, foi nomeada uma Comissão Gestora que começou a trabalhar imediatamente, tendo como principal tarefa a preparação da Primeira Assembléia Geral de MISEVI, em janeiro do ano 2001.

            A partir de então, dita Comissão Gestora mantém contatos permanentes com todos aqueles que estiveram em missões “Ad Gentes” desde o ano de 1984: jovens, casais, Padres, Irmãs; e atualiza a lista de pessoas interessadas neste projeto e os seus  endereços. Além disso, tem-se dividido internamente a responsabilidade de contactar com cada uma das comunidades missionárias nas quais vivem os membros de MISEVI.

            Ressaltamos a valiosa ajuda e o apoio incondicional do Pe. Robert Maloney, sucessor de Vicente de Paulo que, com a sua presença, acolhida, insistência e direção, conseguiu impulsionar-nos no sentido de dar uma estrutura jurídica à Associação e difundi-la em todo o mundo, especialmente no âmbito da Família Vicentina. Nesse contexto, devem ser valorizadas tanto a incorporação de MISEVI à reunião da Coordenação Mundial da Família Vicentina, como também a sua presença na Primeira Assembléia Internacional da Juventude Mariana Vicentina e no Encontro de Jovens Vicentinos, realizados em Roma no mês de agosto do ano 2000.

            A Primeira Assembléia Geral de MISEVI constituiu um momento fundamental na vida da Associação: clarificando a identidade, traçando as futuras linhas de ação, elegendo a Equipe Coordenadora, elaborando o Documento Final, colocando várias realidades em contato, realidades que farão nascer brevemente uma associação realmente internacional.

            Ainda merecem destaque os primeiros passos de MISEVI em novos países: República Dominicana, Itália, Honduras... facilitados, a cada três anos, pelos encontros Iberoamericanos da JMV, simultâneos ao início de contatos e colaboração com MISEVI-Internacional.

 

1.2 - MAS, POR QUE UM DOCUMENTO DE ESPIRITUALIDADE?

            Ao longo dos últimos anos, descobrimos que, na qualidade de associação eclesiástica, devemo-nos aprofundar na nossa espiritualidade própria de leigos que deve ser, inclusive, missionária e vicentina para que seja a base da nossa cordialidade de nosso ser e agir missionários. Devido à superioridade numérica dos religiosos e consagrados (entre nós, F.C. e C.M.), freqüentemente nos são propostas fórmulas de vida e ação que devem ser diferenciadas em função da sua coerência com a identidade leiga que nos caracteriza.

            Ao analisar o processo vital seguido por algum de nós e por outros leigos missionários, descobrimos que, se necessitamos de princípios e critérios de espiritualidade, é possível que o ativismo das urgências e os modelos de cooperação e voluntariado oficial cheguem a influenciar de forma excessiva no nosso modo de vida e dissolvam a motivação cristã que fundamenta a nossa vocação missionária.

            Estamos convictos de que a nossa adesão a Cristo – nossa fé – é o centro e motor da vida missionária. O nosso fundamento leigo, missionário e vicentino é o que dá sentido à nossa vida. Esta espiritualidade é o que faz diferente a opção do voluntário e do cooperador pela Missão.

            Por outro lado, descobrimos que a tarefa missionária é muito ampla; estamos recebendo chamados contínuos de novos setores da pastoral e de novos campos geográficos; por isso, devemos assumir os critérios que nos possam ajudar a trabalhar engajados com os pobres, deixando clara, desta forma, a nossa identidade vicentina, pois “a nossa vocação não é ir a uma paróquia, nem mesmo a uma diocese, mas sim ir por toda a terra” (São Vicente).

            Além do mais, desejamos viver e permanecer na missão como leigos, em comunhão eclesiástica a partir da Família Vicentina. Queremos sentir-nos membros enviados por esta família e contribuir com a nossa vitalidade para a renovação do carisma. Isto exige que  aprofundemos a nossa espiritualidade.

 

2 - BASES DA ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA VICENTINA:

2.1 O QUE SE ENTENDE POR ESPIRITUALIDADE?

            A Espiritualidade é um conjunto de motivações fortes e profundamente evangélicas que fundamentam e dão sentido à nossa esperança, à nossa fidelidade e ao nosso compromisso com a Igreja, para viver o seguimento de Jesus Cristo, inspirados pelo Espírito Santo. É a forma por meio da qual o fiel vai direcionando a sua vida em busca da santidade, da sua união com Deus.

            É um modo histórico de compreender e assumir o Evangelho, os passos de Cristo, a vida em conformidade com o Espírito. É um dom que se pede por inspiração Divina, mas exige a nossa resposta amorosa e corresponsável. “Cada um, segundo seus dons e funções, deve avançar com decisão pelo caminho da fé viva, que sugere esperança e traduz-se em obras de amor” (LG, 41).

            Em decorrência de tal caráter histórico, a Espiritualidade não é algo abstrato; deve estar relacionada com os assuntos principais da vida cristã e atualizá-los conforme as exigências da missão e as necessidades dos pobres; portanto, deve estar em consonância com os contextos sócio, cultural e eclesiástico em que se encontra.

            A Espiritualidade vai-se  definindo na medida em que nos aderimos a Jesus por meio de uma fé personificada, com a vivência comunitária da mesma. Este documento de espiritualidade servirá como marco de referência para quem o aceita como projeto de vida e como carta de apresentação para quem se aproxime à nossa associação.

2.2 - ESPIRITUALIDADE LEIGA

            Sentimo-nos eleitos por Deus e convidados a aceitar a salvação por meio do Batismo. Cada um de nós tem a oportunidade de avaliar (Lc 1,34-35) e aceitar este chamado de Deus que habita em nosso ser (I Pe 1,23), estabelecendo uma comunicação íntima com Cristo, como os sarmentos e a videira (Jo 15,4) para estar repletos d’Ele.

            Recebemos o título de Filhos de Deus em Cristo através de nossa opção pela fé (LG 15,31,32) e abandonamos o “homem velho” para revestir-nos do “homem novo”, do próprio Cristo (Gal 3,27) (ChL 12). Por meio do Batismo, incorporamo-nos ao Povo de Deus na qualidade de leigos; devemos amar e servir a este povo exatamente como Cristo amou e serviu (Jo 13, 12-16).

            Como leigos, participamos também do ministério sacerdotal de Cristo (LG 34), oferecendo-nos diariamente com total generosidade (I Pe 2,5-9), dispostos a entregar o que somos e temos, a própria vida a favor do Reino (ChL 14).

            Participamos, ainda, do ofício profético (LG 35), anunciando a Boa Nova por meio de palavras e obras, tornando Cristo presente no nosso dia-a-dia e denunciando as injustiças do nosso mundo (ChL 14).

            Finalmente, fazemos parte do ofício real (LG 36); cremos e anunciamos que Jesus Cristo é o Rei, superior a tudo o que é terreno e que deve ser o principal valor de nossas vidas (Rm 6, 12-14).

            Vivemos o carisma missionário da vocação à santidade, comum a todos os cristãos; damos vida a tal vocação através da fé, da esperança e da caridade (AA 4).

  • A fé é a aceitação do dom que recebemos de forma gratuita, como o grande presente pelo qual nos entregamos totalmente a Deus Pai, colocamo-nos em Suas mãos e desenvolvemos uma nova sensibilidade para descobrir Sua presença no mundo (At 17,28).
  • A esperança complementa a fé para viver numa atitude de contínua confiança em Deus, desejando que Ele nos guie e aja em nós, fazendo-nos testemunhar a humildade e simplicidade com plena confiança.
  • A caridade leva-nos a amar a Deus porque Ele nos escolheu, dando Sua vida por nós (LG 42) e oferece-nos uma escala de valores para a nossa felicidade (I Cor 13, 1-3), fazendo-nos descobrir que o amor ao próximo é a melhor expressão do amor a Deus; fazendo-nos universais, como foi o próprio Cristo (Fil 2,5).

            Este chamado à santidade leiga compromete-nos com as diferentes realidades humanas, convida-nos a estar presentes no mundo (ChL 17), na nossa realidade atual, procurando transformá-la de acordo com a vontade do Pai, do Evangelho; tudo isso partindo do nosso mais profundo íntimo. 

 

2.3 - ESPIRITUALIDADE MISSIONÁRIA

            Na Espiritualidade Missionária, deve-se observar Jesus Cristo como missionário do Pai, que veio para oferecer o pão da salvação a toda a humanidade e a cada uma pessoa em particular. É certo que toda espiritualidade deve possuir uma dimensão missionária, mas o específico da dimensão missionária está centralizado na vivência do mistério de Cristo “enviado” para evangelizar. (R.M., 88)

            Se diferenciarmos quatro formas ou níveis da vivência da missão, poderemos descobrir outras quatro características da identidade e da espiritualidade missionária:

1. Afirmamos que todo o cristão é missionário; neste sentido, toda a espiritualidade possui uma dimensão missionária que consiste em colaborar com a evidência do Reino de Deus.

2.  Também conhecemos cristãos que dedicam a sua vida interior, oração e religiosidade à difusão da Boa Nova entre outros cristãos. Aqui se consideram desde a oração de tantos anciãos, religiosos, comunidades até grandes místicos, como Santa Tereza de Lisieux.

3. Ainda podemos encontrar cristãos comprometidos que promovem de forma intensa a difusão do Evangelho entre os fiéis, através do uso dos meios de comunicação, facilitando a difusão de milhares de exemplares da Bíblia, fazendo conhecidos os projetos e instituições sociais da Igreja  favoráveis às missões.

4. Finalmente, está a espiritualidade daqueles cristãos que descobrem  uma vocação missionária específica, que se comprometem com a atividade evangelizadora direta, proclamando o Evangelho entre os não-cristãos e que se empenham na constituição de novas comunidades cristãs. Geralmente esta vocação missionária consome a pessoa em sua totalidade e chega a ser uma opção para toda a vida; é uma vocação especial (R.M., 27) que se vive com uma espiritualidade específica (R.M., 87).

            A espiritualidade missionária diversifica-se em função das diferentes vocações e carismas; assim, haverá variações nas formas de imitar Jesus Cristo Missionário, na oração, no apostolado, nas formas de imersão, nas obras sociais promovidas, nos destinatários...

            Maria acompanha e enriquece a nossa espiritualidade missionária, ensinando-nos não somente a dar um “sim” pessoal ao chamado de Deus (Lc 1,38) traduzido no testemunho evangelizador, senão a dar um “sim” comunitário que a Igreja constrói (At 1,14; 2,14). A “Virgem do globo” convida-nos a fazer o Pentecostes  atual em todos os pontos do planeta.

2.4 - ESPIRITUALIDADE VICENTINA

            A espiritualidade vicentina caracteriza-se pelo encontro com Cristo através dos pobres. Cristo revela-nos o amor infinito de Deus pelos homens e convida-nos a trabalhar pela salvação de todos os irmãos. Contempla-se a Cristo como Adorador do Pai e Servidor dos pobres.

            Somente a fé permite enxergar a autêntica realidade das coisas como são perante Deus; pela mesma, podemos descobrir Jesus Cristo nos pobres, já que “quando se serve aos pobres, serve-se a Jesus Cristo... e isto é tão certo como o fato de que estamos aqui presentes” (XI, 240); para poder realizar esta leitura, é preciso pedir a Deus a ajuda da graça e concentrar-se na contemplação do modo de agir de Jesus Cristo: “Observemos o Filho de Deus. Que coração mais caritativo! Que chama de amor! Oh, Salvador, Fonte do amor humilhado até o suplício infame da cruz. Quem tem amado como Vós? Meus irmãos, se tivéssemos um pouco desse amor, ficaríamos de braços cruzados? Desejaríamos a morte de todos esses aos quais poderíamos assistir? Não. A caridade não pode permanecer ociosa, pois conduz-nos à salvação e ao consolo dos demais”. (XI, 132).

            É preciso assumir os sentimentos do coração de Cristo, cheio de misericórdia para com os homens “... aqueles que forem chamados a dar continuidade à missão de Cristo, deverão encher-se dos seus mesmos sentimentos e afetos... para seguir fielmente as suas pegadas” (introd. Regras Comuns). Esta identificação com Jesus Cristo fará surgir nos vicentinos um espírito próprio caracterizado pela singeleza, a humildade, a docilidade, a mortificação, a austeridade, a caridade e o zelo pela salvação.

            A missão pertence à razão do pensamento e da atividade de Vicente de Paulo, pois dirigiu toda a sua vocação ao “povo pobre que se condena por não saber as coisas necessárias à salvação” e por não dispor dos meios necessários para viver de forma digna e desenvolver a sua dignidade de filhos de Deus.

            O Sr. Vicente insistiu de forma veemente em propagar no meio dos seus discípulos o espírito de disponibilidade para ir a qualquer lugar do mundo, fazendo real o mandato evangelizador do Senhor ressuscitado. A sensibilidade missionária vicentina é explicada a partir da contemplação da mesma missão do Filho de Deus e da missão evangelizadora da Igreja, enviada por Jesus Cristo por toda a terra. “O que significa missionário? Significa enviado, enviado de Deus; disse-vos o Senhor: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura” (XI, 342). Por isso, toda a Família Vicentina sente-se chamada e enviada, em nome de Jesus e da Igreja, a anunciar o Evangelho e a servir aos pobres sem limitações de nenhuma espécie.

            Consideramos que todos somos sujeitos do Amor de Deus e objetos da própria liberação e desenvolvimento, mas aceitar tal espiritualidade vicentina levar-nos-á além: a ser sujeitos de uma comunhão com os pobres e objetos da sua evangelização. Deve reinar em nós uma permanente preocupação por atualizar o Espírito Vicentino e torná-lo vivo nas diferentes realidades, a partir de um conhecimento crítico, sempre atentos às mudanças, aos desafios, aos progressos... sendo fiéis à nossa raiz leiga e vicentina, dando resposta ao Evangelho. A linguagem vicentina deve ser: de obras que promovem a Justiça, de palavras que proclamam a misericórdia de Deus, de relações que criam comunidade com os pobres.

A espiritualidade vicentina é enriquecida pela contemplação de Maria que nos anima a perseverar tanto no reconhecimento da ação de Deus na história como nos gestos de serviçalismo que constróem o reino. O seu “sim” e as manifestações marianas de 1.830 estimulam-nos a cultivar a nossa disponibilidade e entrega evangelizadoras, especialmente a favor dos jovens marginalizados, anunciando o amor misericordioso de Deus que dá um novo sentido aos sofrimentos e pobrezas do nosso mundo.

                 

3 - RECONHECEMOS O REINO NESTES PROCESSOS GOZOSOS/ POSITIVOS

            Nós - leigos missionários - percebemos que o Reino está presente no nosso meio como dom de Deus e como resultado do trabalho das pessoas de boa vontade; com isso, a nossa esperança é consolidada. Essa presença é identificada nos seguintes signos (sinais):

            * Constatamos que em muitas culturas florescem elementos profundamente humanizantes: maior consciência dos Direitos Humanos que devem ser facilitados a todas as minorias sociais; a educação primária é estendida a amplos setores da população;  a liberdade é promovida em todas as suas expressões; o associacionismo e a democracia são consolidados como sistemas políticos desejáveis; as novas tecnologias de comunicação e informação facilitam uma cultura global.

            * Tem-se desenvolvido uma maior consciência social em direção aos mais necessitados, tanto a nível local como mundial, que induz uma boa parte dos leigos a buscar formas concretas de aderência e colaboração em programas de solução dos problemas de desenvolvimento, de igualdade-discriminação, de paz, de saúde, de ecologia etc. É uma aspiração à fraternidade e à ajuda mútua universais, sem distinções de raças, condições sociais ou crenças para lutar pela superação dos múltiplos fenômenos de exclusão social. Este é um dos sinais mais eloqüentes para a cultura contemporânea.

            *  Está sendo realizada uma mudança esperançosa na atitude dos leigos face à ação evangelizadora. O leigo vai assumindo, pouco a pouco, a responsabilidade adquirida no Batismo e reforçada na Confirmação de sentir-se protagonista na missão de transmitir a mensagem do Evangelho nos diferentes meios sociais. Descobre-se que a fé em Jesus Cristo conduz ao anúncio da Boa Nova com fatos e sinais que, já agora, manifestem a presença do Reino, mediante pessoas íntegras, livres e responsáveis que ajudem a transformar a sociedade, fazendo com que o progresso leve a uma nova fraternidade de paz e de transcendência. A Família Vicentina está crescendo em identidade, em projetos comuns e em desafios de promoção/evangelização dos pobres.

            * Como conseqüência do anterior, atualmente está-se realizando um florescimento de meios através dos quais os leigos são convidados a comprometer-se na evangelização e desenvolvimento além das suas fronteiras. Há múltiplas convocatórias a diferentes atividades no sentido de que os jovens e adultos tenham experiência de estada e colaboração em alguma missão durante as suas férias ou alguns meses. Esta acolhida constitui um serviço generoso que as jovens igrejas prestam ao primeiro mundo e às comunidades mais necessitadas, mas exige uma séria preparação, pois é preciso planejar o envio para experiências breves não somente desde o ponto de vista da pessoa enviada ou de quem a envia, mas sim fundamentalmente desde as necessidades da missão e das comunidades e pessoas a quem é enviada.

            * A multiplicação de ONGs de carácter social é uma prova incontestável da sensibilização e do desejo de solidariedade da sociedade contemporânea, é um voluntariado não confidente que convoca muitas pessoas desejosas de participar em labores solidários.

            *  Nas Associações Vicentinas, os jovens optam por viver comunitariamente os valores do Evangelho partindo da gratidão, do serviço, da humildade e da austeridade, doando o seu tempo e a sua vida aos projetos sociais concretos na sua própria cultura ou na colaboração evangelizadora em missões “Ad Gentes”. Boa prova disso são as Comunidades Permanentes de Serviço e as Comunidades Permanentes de Missões que a JMV da Espanha tem levado a cabo nos últimos anos.

            Todos estes são sinais gozosos que nos fazem sentir que o Reino está-se tornando realidade já, aqui e agora; é o dom do Senhor concedido aos esforços missionários da sua Igreja.

 

4 - SOMOS INTERPELADOS PELA REALIDADE

            A presença do Reino em nosso meio não nos impede de ter a consciência de que ainda há muitas realidades humanas necessitadas de uma solução para superar distintas pobrezas e desvalores. Para comprometer-se a favor da missão, é preciso fazer uma análise crítica e adequada da sociedade e das experiências religiosas do nosso tempo.

            Os elementos negativos e as dificuldades ajudarão a abrir-nos à graça do Senhor e a descobrir onde devemos insistir constante e criativamente.

            Entre as características da nossa sociedade que mais nos interpelam, destacamos:

- Vivemos numa cultura predominantemente marcada por desvalores, na qual ter é mais importante do que ser; há uma predominância do consumismo e dos seus elementos residuais, tais como: desemprego, competitividade, individualismo, degradação da família, aumento do número de lares onde só reside uma pessoa, violência, delinqüência, drogas... Tudo isso num contexto global de agravamento da pobreza e exclusão de amplos grupos de pessoas.

- A globalização e o neoliberalismo são sistemas econômicos injustos e geradores de riqueza para uma minoria, enquanto um número crescente de países  deparam-se com novas pobrezas associadas a profundas situações de injustiça como a dívida externa, as migrações, a ditadura e a corrupção dos governos por parte das multinacionais, a restrição dos direitos sociais básicos (saúde, educação, moradia), o narcotráfico e as máfias.

-  As culturas críticas e alternativas têm forte dificuldade de manter-se como oferta significativa socialmente e de renovar a sua identidade perante a evolução da história.

- Os programas de voluntariado e cooperação internacional muitas vezes terminam prejudicados pela burocracia e pelo grande peso dos salários de pessoas imigrantes.

- Auge do movimento “New Age” e crescimento de seitas e movimentos de carácter religioso que buscam dar sentido à necessidade de transcendência das pessoas.

- A nível eclesiástico, também detectamos diferentes elementos que nos convidam a trabalhar no sentido de que a comunidade cristã esteja mais aberta à construção do Reino.

- As paróquias não são uma autêntica organização da comunhão entre as comunidades; deixam-se levar pelo conservadorismo ou pela burocracia, sem que os sacramentos sejam a festa da vida no Espírito, sem que se termine de assumir tudo o que implica o Concílio Vaticano II.

- A vida quotidiana da Igreja não atrai a juventude e, ainda que os jovens participem em grupos e movimentos cristãos, demonstram resistência à opção vocacional serena e  generosa.

-  No Ocidente, é bastante freqüente a dupla imagem negativa de que a hierarquia está distante do povo e de que a Igreja acumula uma excessiva quantidade de bens.

- A vitalidade das igrejas do Sul não é reconhecida, o que não lhes facilita apoios na formação dos seus animadores e valorização das contribuições dos leigos e jovens.

            Ainda descobrimos na vida dos missionários algumas tentações que devemos superar:

- Tentação do protagonismo: pensar que somos insubstituíveis – inclusive a partir do paternalismo -, não sabendo confiar nem trabalhar em equipe. Para tanto, será preciso ajudar a perceber os limites e a fragilidade de cada um, descobrindo que existe um único pastor que fecunda todos os trabalhos.

- Tentação do fatalismo: deixar-se levar pelo conformismo, pelo desânimo diante da falta de resultados visíveis. Faz-se necessário convencer-se de que o Senhor está sempre ao lado dos que trabalham na construção do Reino.

- Tentação do narcisismo: preocupar-se somente consigo mesmo, buscando acomodar-se a uma vida mais ou menos burguesa, chegando a trabalhar somente nos setores que nos são mais fáceis ou conhecidos; é preciso viver a partir da dinâmica redentora da cruz de Cristo, a partir do plano salvífico de Deus.

- Tentação do ativismo: atuar em múltiplos compromissos sem a reflexão e o discernimento no espírito, sem motivações da fé e sem espaços para a contemplação; para superar estas visões parciais, devemos favorecer a comunhão e a sensibilidade de fazer parte do Reino.

 

5 - EXPONDO A NOSSA IDENTIDADE MISSIONÁRIA

             A principal tarefa da Igreja é a evangelização (EN 1,14), ser sinal e sacramento do Reino de Deus entre os homens; um reino de amor, liberdade, justiça e paz. E, visto que a missão é o elemento inicial da evangelização; todo o seguidor de Jesus Cristo participa deste labor, conforme a sua condição e vocação.

            Sentimo-nos missionários vicentinos leigos e procuramos que cada um destes elementos que definem a nossa vocação tenho peso suficiente para conduzir a nossa vida em direção a uma resposta ao Chamado que recebemos de Deus. Tentamos viver as três dimensões e, assim, acreditamos estar dando uma resposta ao que Deus quer de nós.

5.1 - SOMOS LEIGOS

             Como leigos, devemos possuir uma postura crítica perante a realidade, iluminada pelo carisma vicentino; deve haver uma constante preocupação por atualizar o espírito vicentino e encarná-lo nas diferentes realidades a partir de um conhecimento crítico, estando atentos às mudanças, aos desafios e progressos, dando respostas baseadas no Evangelho. Isto supõe uma preocupação permanente pela autoformação e pela capacitação específica conforme as necessidades dos pobres.

            Nós, leigos, construimos a Igreja introduzindo-nos em estruturas, ambientes e organizações da sociedade, oferecendo a nossa condição de fiéis e sendo testemunhas do Cristo Ressuscitado e do Reino. Ainda somos chamados a edificar a Comunidade, a Igreja, colaborando com os diferentes ministérios que possibilitam a transmissão da Palavra, a celebração da fé, o exercício do diaconato e o desenvolvimento da “koinonia”, que favorece a comunhão.

            Dedicamo-nos à conjunção de ambas dimensões da vida do fiel num diálogo permanente, a partir do discernimento comunitário e das necessidades daqueles que nos rodeiam, procurando dar uma resposta aos chamados de Deus em cada momento específico da nossa história.

            Cada comunidade – conjuntamente consideradas – procura realizar ações capazes de atender ao ANÚNCIO e CATEQUESES (evangelização), VIDA (área social) e CELEBRAÇÃO (liturgia) da Boa Nova nos diferentes lugares em que nos fazemos presentes.

5.2 - VIVEMOS A IDENTIDADE MISSIONÁRIA:

            Ao definir a nossa identidade missionária, encontramos os seguintes elementos com os quais desejamos construir a nossa vida:

5.2.1 - Obediência ao Espírito Santo

            Os discípulos de Jesus nos mostram o caminho para adquirir uma espiritualidade missionária. Eles aprenderam a ser apóstolos de forma gradativa, imitando na sua vida o exemplo de Jesus Cristo, “o primeiro apóstolo” enviado pelo Pai. O Espírito os converteu em “valentes testemunhas de Cristo e ilustres anunciadores da Palavra” (RM, 87). O Espírito transformou seguidores temerosos, dando-lhes uma vida, uma oração, um apostolado, uma entrega radical... novos, a partir de uma nova visão de Deus, do mundo e de si mesmos.

            Assim como os Apóstolos se deixaram guiar pelo Espírito Santo e repletos do mesmo na determinação dos lugares, povos e métodos da evangelização (RM, 24), a missão também é fruto de impulso dinâmico do mesmo Espírito Santo, que impusiona os missionários a converter-se no seguimento de Jesus Cristo e a suscitar nos seus contemporâneos uma atitude semelhante.

            Toda a vida missionária autêntica deve ser vivida na alegria interior que o Espírito concede a quem vive da fé, pois encontramos em Cristo a verdadeira esperança. “Se é certo que fomos chamados a levar ao nosso redor e por todo o mundo o amor de Deus; se havemos de inflamar com esse mesmo amor todas as nações; se temos a vocação de ir e acender esse fogo divino por toda a terra, se isto é assim, quanto hei de arder eu mesmo com esse fogo divino!” (XI-4 Conferência 130, página 553).

 

5.2.2 - Vivendo em atitude de imersão

            Ao encarnar-se, Cristo foi capaz de superar as distâncias e barreiras entre o humano e o divino. Graças à sua humanidade, as pessoas não se sentem distante de Deus, sentindo-se filhas e herdeiras da promessa (Gál 4,4-7). Cristo aceita o ser humano tal como este é e faz-se pobre para ajustar-se à nossa debilidade. “aniquilou-se a Si mesmo, assumindo a condição de servo e fazendo-Se semelhante aos homens” (Fil 2,7-8).

            O processo de partilha da condição humano-cultural do povo ao qual se envia é um dinamismo sem fim que acompanha  todo missionário de forma permanente. A encarnação ou imersão é um contínuo êxodo de uma pessoa em busca do desapego e da renúncia, aceitando as incompreensões e os fracassos no cumprimento da missão, a exemplo de Jesus Cristo. Quem se insere verdadeiramente em uma comunidade deve estar disposto a comprometer-se e entregar toda a sua vida neste labor.

            Nós, leigos missionários, na qualidade de eleitos e enviados, somos continuadores da vida e da missão de Jesus Cristo na realidade concreta, num momento determinado da história no qual devemos responder com total entrega e generosidade, pois:

  • para conhecer uma realidade, faz-se necessário experimentá-la;
  • para amar uma realidade, faz-se necessário sofrê-la;
  • para transformar uma realidade, é preciso fazer parte da mesma.

A nossa Missão no mundo deve ser realizada junto do pobre, com os mais fracos (Mt 25,40), fazendo uma opção pelos mesmos, ajudando a dignificar a sua vida o seu modo de sentir o mundo, vivendo a caridade apostólica com eles: atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade... ao estilo de Vicente de Paulo, que entregou toda a sua vida e o seu amor ao serviço dos pobres. “Os pobres são o meu peso e a minha dor”. “Os pobres são os nossos amos e senhores; não somos dignos de fazer-lhes lucrar o nosso pequeno serviço”.

A espiritualidade missionária conduz a uma autêntica imersão (RM 25,40); com ela, o missionário converte-se num mais daqueles aos quais é enviado; converte-se num “irmão universal” que descobre os valores da nova cultura que o acolhe ajuda esta mesma cultura a percebê-los e enriquecê-los na comunhão da Igreja.  

5.2.3 - Apoiando e partilhando processos de solidariedade.

            Jesus Cristo dedica a sua vida a anunciar aos pobre que a Boa Notícia do Reino é para eles (Lc 4,18). Mostra que Deus Pai é amor porque ama àqueles que ninguém ama, aos que estão “cansados e oprimidos” (Mt 11,28) pela dupla experiência do desprezo público e da falta de esperança por nunca poder encontrar a salvação em Deus.

            A evangelização missionária deve constituir algo novo, anunciar que está mudando por e para os pobres porque esta é a vontade de Deus; esta novidade produz alegria e aumenta a liberdade, pois o projeto de Deus é  vida e fraternidade para todos.

            “Aproximando-nos ao pobre para acompanhá-lo e senti-lo, fazemos o que Cristo fez por nós na sua encarnação, ao fazer-se irmão nosso, pobre como nós” (Puebla, 909). Por um lado, o amor aos pobres é um dom que recebemos de Deus e que nos introduz na dinâmica da misericórdia com que Ele ama aos pobres; por outro, é uma exigência de justiça que implica realismo e busca de eficácia.

            “Vimos de uma herança de esmolas, de caridades, de campanhas de emergência, de ajudas pontuais que seguirão sendo necessárias, porque pobres e desgraças sempre existirão, mas que não justificam o estacionamento da solidariedade neste nível; sempre é necessário também incidir na estrutura. E penso que,  nessa perspectiva, deveríamos insistir cada vez mais na igualdade, como objetivo da solidariedade; igualdade para as pessoas e para os povos; igualdade de dignidade, de direitos e de oportunidades” (P. Casaldáliga).

            O missionário leigo deve buscar a autopromoção dos pobres com dinâmicas de compromisso pessoal com projetos que ajudem na liberação de si mesmos e dos mais fracos. Será fundamental a criação de uma consciência de grupo e o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre o estado da sociedade e da tendência à autojustificação humana. Além disso, pode-se apoiar projetos concretos que facilitem a divisão equitativa da riqueza entre todos os habitantes da terra, sem criar novas dependências dos povos mais empobrecidos, possibitando que eles mesmos sejam protagonistas do seu processo de crescimento.

Devemos ser conscientes de que a Caridade política exige dos cristãos que vivamos a nossa identidade em carácter social, extraindo conseqüências dos valores evangélicos para o labor diário dos povos e as culturas. Isto supõe o conhecimento e o apoio dos movimentos em prol dos Direitos Humanos, da remissão da dívida pública, dos movimentos sociais alternativos... Atualmente, a santidade somente é possível quando acompanhada de um compromisso com a justiça, solidariedade com os pobres e oprimidos; portanto, “o modelo de santidade dos fiéis leigos deve ser incorporado à dimensão social da transformação do mundo segundo o Plano de Deus.

5.2.4 - Construindo a vida da Igreja:

            A espiritualidade missionária também é caracterizada por um profundo amor pela Igreja. Da mesma forma que Cristo amou a Igreja e entregou a Si mesmo por ela (Ef 5,25), o missionário busca entregar-se pela Igreja, pelo bem de todos (RM 89).

            A experiência pessoal de que a Palavra e a liturgia constituem o principal alimento de uma verdadeira vida espiritual é o motor que busca a participação de todas as pessoas nestes bens oferecidos na comunhão dos discípulos de Jesus.

            A Igreja Universal é consumada nas Igrejas particulares; é uma diversidade de comunidades eclesiásticas, nos diferentes grupos  e movimentos, na variedade de carismas, dons e ministérios; neles, o seguimento de Cristo se concretiza. Assim se edifica a Igreja, sempre alimentada pela Palavra e pelos sacramentos.

Além de apoiar a formação das comunidades eclesiásticas, o missionário deve buscar que todos os fiéis cheguem a confessar sua fé a um único Deus por meio de uma comunhão viva, dos sacramentos e compromissos.   

 

6 - CONCRETIZANDO UM ESTILO DE VIDA

 

6.1 - CENTRALIZADOS EM JESUS CRISTO

            Jesus Cristo é o missionário por excelência; o missionário enviado pelo Pai para cumprir, livre e gratuitamente, os projetos do Pai, respondendo desta forma à busca humana de sentido e concedendo um horizonte a todas as nossas expectativas. Na contemplação a Jesus Cristo, descobrimos que:

- Jesus foi o primeiro evangelizador (EN. 1,7) e anunciou ante todo o Reino de Deus, cujo núcleo é a salvação.

- Fez da vontade do Pai a sua própria: Abbá, quem nos faz filhos seus e irmãos uns dos outros, em Deus (Rom 8,14-17).
- Jesus viveu uma opção preferencial pelos mais pobres e necessitados, os quais – uma vez evangelizados – convertem-se em seus discípulos (EN. 1,12).

- Entre as suas atitudes, podemos destacar a misericórdia, a humildade, a singeleza, o amor e o serviço, levado até as últimas conseqüências.

- Jesus Cristo é fonte de espiritualidade que nos liberta das ambigüidades da nossa história.

            Para viver e permanecer fiel a Jesus Cristo, é preciso desenvolver uma sensibilidade contemplativa capaz de apoiar os motivos do nosso serviço aos pobres. Descobrimos que a oração e a contemplação são fundamentais na espiritualidade missionária, pois o êxito da missão não depende dos recursos humanos; o missionário deve ser um contemplativo na ação; do contrário, não poderá anunciar o Evangelho de forma crível (RM 91). Além disso, é na oração onde se encontra a força para a proclamação missionária e a luz para os problemas pessoais e missionários. “Dai-me um homem de oração e será capaz de tudo” (Vicente de Paulo).

            A Virgem Maria convida-nos a convergir nossas atenções em Jesus Cristo “fazei o que Ele vos disser”, ajudando-nos a concretizar a nossa espiritualidade por meio dos valores evangélicos e do seguimento de Jesus.

            A vida espiritual dos missionários deve ser cuidada com esmero:
- Proporcionando tempos diários de oração pessoal e comunitária.
- Lendo e meditando a Escritura de maneira freqüente;
- Comprometendo-se com a freqüente participação eucarística;
- Oferecendo alguns dias de exercícios anuais;
- Planejando alguns encontros comunitários para compartilhar a vivência espiritual.
- Imitando Maria no seu estilo de vida e anunciando Jesus Cristo

 

 6.2 - OPTAMOS PELA MISSÃO ENTRE OS POBRES

            A atenção aos sinais dos tempos e a experiência central da vocação vicentina convidam-nos a buscar Jesus Cristo na pessoa dos pobres, no seu processo vital e de morte.

            A indiscutível caridade de Cristo crucificado  torna efetivo o amor afetivo, que fica muito ridicularizado quando não se traduz em obras e em compromissos a favor dos aflitos e doentes. “Amemos a Deus, meus irmãos; amemos a Deus, mas às custas dos nossos braços, com o suor de nossa fronte” (XI, 733).

            A exemplo de Vicente de Paulo, descobrimos que somos chamados a colaborar na evangelização dos povos mais necessitados e, ao mesmo tempo, ver Jesus Cristo naqueles que ignoram o significado da sua encarnação e da redenção. “Dai meia volta na medalha e vereis com as luzes da fé que esses são os que nos representam o Filho de Deus, que se fez pobre” (XI, 725)

            Para viver como vicentinos em meio aos pobres, propomo-nos a:

- Buscar que os nossos lugares de vida e trabalho estejam situados em bairros populares, com objetos semelhantes aos dos pobres;

- Colaborar nos projetos de autopromoção dos excluídos e de todos os tipos de pobrezas, favorecendo projetos educativos não formais, participativos e libertadores.

- Viver a caridade concreta e efetiva com singeleza, gratuidade e humildade.

- Administrar as nossas economias com austeridade, pois sabemos que os nossos bens correspondem aos pobres, submetendo tais economias ao discernimento comunitário.

6.3 - A PARTIR DE UMA INSERÇÃO COMUNITÁRIA

            Jesus forma uma comunidade reunindo ao seu redor um grupo de discípulos que  deixam tudo para segui-lo e o mesmo Jesus lhes dá algumas indicações sobre o modo de vida interna para que antecipem a futura convivência a que todos estamos chamados (Mt 19, 27-29; Mt 18, 1-35). Nos Evangelhos, os almoços de Jesus com seus discípulos e com os excluídos têm grande força, significância que culmina na Eucaristia. A comunidade de Jesus é formada por aqueles que fazem a vontade do Pai e vivem a partir do projeto do Reino.

            Mesmo encontrando diferentes modelos de comunidade no Novo Testamento, podemos descobrir que a organização das mesmas é flexível e elástica, conforme as circunstâncias e as necessidades; as estruturas são mínimas e estão a serviço dos vínculos do amor, do conhecimento recíproco, da colaboração. Nelas, cada pessoa é valorizada de forma singular e contribui segundo o seu carisma, mas a responsabilidade é da comunidade; pratica-se a hospitalidade e promove-se a caridade como carisma fundamental. Busca-se também o diálogo sereno nos conflitos.

            A comunidade é vivida em MISEVI como a comunhão daqueles que cumprem a vontade do Pai e entram no projeto do Reino; assim, sabem tornar relativas as estruturas tradicionais e enfrentam as dificuldades para viver o seguimento de Jesus Cristo.

            As nossas estruturas são mínimas, de modo que favorecem as relações horizontais e fraternais, alimentam os vínculos de amor e  o conhecimento recíproco, o sentido de colaboração e ajuda mútua. Respeitamos as diferenças das pessoas e convivemos num ambiente de diálogo, discernimento, à luz da Palavra e do carisma vicentino. Buscamos tomar decisões de forma consensual.

            Nós, missionários leigos, optamos por contribuir com uma vivência comunitária de qualidade; para tanto, esforçamo-nos por:

- Conseguir que cada missionário cresça em madureza humana, que aceite as suas próprias limitações e as alheias, estando disposto a comunicar-se, a trabalhar em equipe, a partilhar a vida de forma fraternal.

- Sentir-nos chamados pelo Senhor, como grupo-comunidade, a continuar a sua missão, interpretando a história e os fatos de cada dia como signos do Reino, tendo um discernimento iluminado pelo Espírito, buscando a verdade com singeleza, como irmãos que se apoiam.

- Construir a unidade a partir do pluralismo e da aceitação de situações de conflito, como ocasiões de crescimento, madureza e criatividade.

- Tornar possíveis os elementos constitutivos da vida comunitária: oração comunitária, elaboração e vivência do projeto de vida comunitária, encontros de reflexão e discernimento, celebrações zeladas da Eucaristia e da reconciliação.

- Cultivar a acolhida de outros agentes de pastoral, dos pobres, dos vizinhos próximos.

- Efetivar programas de formação permanente que nos possibilitem manter na renovação evangelizadora.

- Assumir a própria história do povo em cada cultura, as suas experiências vitais e os seus valores. Vivemos em comunidade, mas estamos inseridos na realidade; somos signo de unidade e procuramos fazer Deus presente onde Ele aparentemente não está. A nossa comunidade não a sua fé de forma isolada, senão inserida numa comunidade eclesiástica à qual pertence e na que busca viver o amor e os dons que Deus deu a cada pessoa para a edificação comum do seu corpo, a exemplo de todo cristão; sabe que uma comunidade auto-suficiente e isolada das demais não constrói Igreja, pois não mantém vínculos de comunhão com outras comunidades, sejam locais ou da associação na qual os membros fazem parte. Manifestam, dessa forma, sua inserção e a sua disponibilidade universal.

            A nossa missão no seio da Igreja será caracterizada:

  • pela nossa contribuição do carisma vicentino com a comunidade eclesiástica;
  • pela participação nas estruturas pastorais para impulsionar as ações da Igreja;
  • pela colaboração no âmbito diocesano, dentro de nossas possibilidades;
  • pela promoção da Família Vicentina, na sua organização e ação conjunta;
  • pela presença dos membros comprometidos: anúncio, celbração e vida;
  • pela animação da dimensão missionária de toda a comunidade.

 

6.4 - COM UM PROJETO PESSOAL DEFINIDO

            Nos primeiros passos da vocação missionária, o interesse e o entusiasmo por servir ao Jesus que chama tornam-se muito bonitos e são vividos como momentos de autêntica realização  pessoal. Percebe-se com o coração que o encontro com Cristo missionário atende às profundas aspirações do ser humano, mas tais motivações devem crescer e amadurecer, pois não são suficientes para manter a fidelidade missionária na monotonia da vida diária, nas crises e nos possíveis fracassos. Por isso mesmo, é preciso que cada um dos leigos missionários organizemos o nosso modo de viver e crescer na vocação com a formulação do projeto pessoal.

            O missionário crê que Jesus Cristo revela ao Pai que nos envia a ser verbo encarnado com os mais pobres, o que significa que a sua missão é de revelar o Amor de Deus aos pobres, vivendo em comunhão com os mesmos, possibilitando-lhes ser sujeitos do seu próprio desenvolvimento e libertação e deixando-se evangelizar por eles; portanto, tem sempre presente a preocupação de atualizar o espírito vicentino e encarná-lo na realidade, a partir de um conhecimento crítico e atento às mudanças, desafios, progressos... fiel à sua raiz leiga e vicentina, dando uma resposta ao Evangelho.

            O projeto pessoal será um meio para promover o progresso das opções e atitudes missionárias nos diferentes momentos de inserção na missão. Estaremos atentos tanto às motivações e opções fundamentais como aos ritmos, estratégias e compromissos concretos. A opção por escrito deste processo de elaboração e revisão constituirá uma valiosa ajuda no desenvolvimento da espiritualidade missionária.

            Como ajuda para desenvolver a nossa espiritualidade missionária, recordamos que o missionário:

  • é seguidor fiel de Jesus Cristo, evangelizador dos pobres e encontra naqu’Ele a verdadeira esperança;
  • está entusiasmado e entregue à construção do Reino;
  • é impelido pelo Espírito Santo para discernir os sinais dos tempos;
  • pratica a oração pessoal e comunitária, fonte de renovação do seu compromisso;
  • vive em comunhão com a Igreja e celebra os Sacramentos;
  • é criativo, dinâmico e presente;
  • ajuda a Igreja a viver os momentos transitórios;
  • está a serviço de uma realidade concreta;
  • está junto do pobre, o mais pequeno, e opta pelo mesmo;
  • auxilia na dignificação da vida e dos sentimento dos demais;
  • reconhece em Maria o modelo de encarnação;
  • é atencioso, humilde, singelo, terno, compassivo e disponível, a exemplo de S. Vicente;
  • tem ânsia pela justiça e pela paz;
  • vive em uma comunidade leiga missionária.

 

O projeto pessoal dos missionários deve colaborar com o desenvolvimento das atitudes missionárias fundamentais:

  • atitude de escuta e olhos bem abertos para  detectar as necessidades;
  • analisa todos os acontecimentos da vida à luz da fé, da Palavra e da espiritualidade vicentina;
  • vive um real compromisso de libertação integral das pessoas;
  • está aberto ao diálogo e à compreensão, respeitando e amando a diversidade;
  • Insere-se na cultura e na realidade em que lhe corresponde viver, promovendo o que existe de positivo nessa cultura e enriquecendo-o com o anúncio do Evangelho;
  • está atento às realidades mais necessitadas do amor de Cristo;
  • vive o serviço pastoral fundamentado nos dons recebidos, em comunhão com a Igreja local e diocesana, introduzindo o carisma vicentino em tal serviço;
  • favorece o trabalho em equipe, impulsiona a organização de estruturas participativas e igualitárias.

 


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